Por que existe tanta controvérsia no meio médico em relação à utilização da imunização com linfócitos do esposo? Alguns profissionais desconhecem o tratamento, outros não acreditam em sua eficácia. Qual a razão disso? Existem pesquisas científicas atestando a validade do tratamento?A imunoterapia tem base científica bem estabelecida. Nas décadas de 70 e 80, pesquisadores do mundo inteiro estavam interessados na interação materno-fetal. Dentre eles, destacaram-se Beer & Bilingham, este último Nobel na medicina por seus serviços. Esses dois autores descreveram os mecanismos de adaptação imunológica na gravidez em animais de experimentação e em seguida em humanos. A partir de observações da resposta imunológica de melhor aceitação dos transplantes em pessoas previamente submetidas a transfusões de sangue, propuseram-se a estudar se este efeito também ocorria na gravidez. Em 1980 nasceu o primeiro menino cuja mãe foi tratada por essa técnica, hoje um estudante de medicina, proposto pelo Dr. Beer. Em 1984, foi publicado o primeiro estudo randomizado duplo-cego com o tratamento imunológico em mulheres com aborto recorrente, demonstrando sua eficácia. Nos anos que se seguiram, vários outros estudos repetiram essas observações, alguns com resultados semelhantes e outros com resultados inferiores. Houve muito receio ainda pela epidemia da Aids para o uso de transfusões de sangue, em especial de doadores não aparentados. Em 1999 um grupo de médicos americanos publicou um estudo duplo cego que não confirmou os achados publicados em 84. Por questões políticas, o grupo que publicou esse artigo, omitiu o nome do Dr. Beer como um dos investigadores desse trabalho, o que gerou protestos pela postura inadequada daquelas pessoas. O projeto não seguiu o desenho de estudo proposto inicialmente, as mulheres não foram reavaliadas se haviam desenvolvido a resposta positiva no crossmatch e obviamente os resultados foram insatisfatórios. Depois disso, uma revisão dos trabalhos publicados até 2003 mostra que há mais doze publicações de vários países diferentes, atestando a eficácia do tratamento. Há controvérsia em quase todo tipo de tratamento médico. Alguns provocam mais ou menos alarde, dependendo de múltiplos fatores e interesses envolvidos. Toda nova modalidade terapêutica demora a ser incorporada na prática clínica e é preciso dar um tempo para que os profissionais incorporem a linguagem imunológica na sua atividade clínica. Foi assim com cirurgia, com a hormonioterapia e assim será sempre que algo novo surgir como novidade terapêutica.
Quantos profissionais no Brasil realizam o tratamento com as vacinas?
Hoje somos pelo menos dez médicos no Brasil a fazer o tratamento com vacinas. A cada dia mais centros de reprodução assistida estão utilizando a imunoterapia devido à melhora em seus resultados.
Por que é recomendado evitar a gravidez durante o tratamento? Alguns centros realizam a imunização somente durante a gravidez.
A finalidade é para a mulher engravidar somente quando tivermos certeza que passou a desencadear uma resposta imune de reconhecimento dos antígenos paternos.
Como a imunização com linfócitos pode ajudar os casais com falha de fertilização in vitro (FIV)?
Mulheres com falhas de implantação ciclos de FIV têm uma reação imune com tendência a produzir uma resposta do tipo 'agressora' (resposta Th1) e não 'protetora' (resposta Th2) em relação à gravidez. O crossmatch de pacientes que não engravidaram em ciclos de FIV em quase sua totalidade é negativo (elas não foram expostas aos antígenos de seus maridos depois da implantação). Trabalhos recentes demonstram que a imunização muda o padrão de resposta de 'agressora' para 'protetora' (de Th1 para Th2). Esse mesmo efeito se consegue com uso de imunoglobulina humana intravenosa, porém a um custo dez vezes maior.
Como avaliar se a paciente está respondendo ao tratamento? Um novo crossmatch é a única maneira ou há 'sinais' que podem ser percebidos
por ela?
Rotineiramente utilizamos o crossmatch para certificar a eficácia do tratamento, porém estudos investigam se a dosagem de substâncias Th1 e Th2 podem ajudar nessa avaliação de forma mais específica.
Quando são necessárias as doses de reforço?
A capacidade de responder a um estímulo imunológico depende de características individuais e da potência do estímulo em relação àquele indivíduo. As dificuldades imunológicas se estabelecem por maior semelhança imunológica entre os pares de casais. A maioria dos casais responde com uma seqüência de duas doses, outros necessitam de maior número de estímulos.
Por que é recomendada uma nova dose a cada três meses, se a mulher não engravidar? Este período de tempo não poderia ser maior?
Não há um dado específico que determine a cada quanto tempo se deve fazer um reforço. Este protocolo visa garantir que a mulher esteja com uma produção intensa de anticorpos enquanto tenta engravidar.
Quais os riscos do tratamento?
O material utilizado na produção das vacinas com leucócitos é feito apenas de células do sistema de defesa (neutrófilos e linfócitos). Essas células são destruídas e removidas do organismo receptor depois de um curto espaço de tempo (menos de seis semanas). Não há porque ter qualquer conseqüência futura que não o estímulo imunológico, em especial alterações do ponto de vista genético. Não se trata de transferência de material que iria modificar geneticamente o indivíduo receptor. Do ponto de vista imune as modificações que se induz são exatamente as mesmas que ocorrem em uma gravidez normal, em que a mulher é exposta aos antígenos de origem paterna através da placenta. Pode ocorrer limitação para futuros transplantes em que a mulher imunizada seria receptora de órgão de seu marido ou doador com o qual foi preparada a vacina Há que se ter atenção com a sensibilização para o fator RH. Sempre que a mulher tiver tipo sanguíneo RH negativo e o marido (ou o doador) for RH positivo ela deve receber uma vacina anti-RH (rhogam, matehrgan ou prartogama) em cada imunização com leucócitos. Cuidados devem ser tomados com a transmissão de doenças infecciosas, sendo feito um rastreamento prévio através de sorologias.
Existe algum risco da vacina para o bebê?
Há uma incidência de 3% a mais de baixo peso ao nascimento nas pacientes tratadas de alterações imunológicas, sejam autoimunes (tratadas com medicações) ou aloimunes (tratadas com as vacinas). Existe ainda um risco de trabalho de parto prematuro entre as mulheres tratadas, mas devido à patologia imunológica e não ao tratamento com as vacinas.
Fonte: Centro de Pesquisas Vidas









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